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dezembro 13, 2006
Acorda, tio!
O Cardoso me mandou o texto abaixo e eu demorei alguns minutos para me recuperar do susto.
Chama-se "A PRAGA DOS MOJOS" e foi escrito pelo André Machado, do jornal "O Globo".
Link original aqui.
Recebi um recorte digital do “Washington Post” muito preocupante. O recorte conta as novidades inventadas por uma cadeia americana de jornais para fazer face ao crescimento avassalador da internet. A mídia impressa, de fato, está tendo de se adaptar aos novos tempos em que o ciberespaço elevou à enésima potência as conseqüências da “aldeia global” prevista por Marshall McLuhan. Entretanto, as mudanças promovidas por um jornal da mencionada cadeia, no estado da Flórida, merecem reflexão.
O site do jornal passou a ser o principal receptáculo das notícias apuradas. E os repórteres que as escrevem não têm mais mesa, cadeira, terminal — em suma, não têm redação para onde voltar após as tarefas de apuração.
Eles não vão a campo; eles vivem em campo. São, por isso mesmo, chamados de “mobile journalists”, ou “mojos” (a palavra “mojo” em inglês também é gíria para “feitiço”). Os “mojos” praticamente ficam na rua o dia inteiro, em seus carros, como aqueles tiras que vemos nos seriados policiais, correndo atrás das notícias.
Carregam consigo uma parafernália tecnológica: notebook com acesso wireless à internet, mais gravador, câmera fotográfica e filmadora (tudo digital). Apuram várias histórias por dia, tiram fotos (ou filmam) e, ato contínuo, publicam tudo no site do jornal. O recorte do “Post” acompanha um desses repórteres móveis numa de suas tarefas típicas: o lançamento de uma agenda comemorativa beneficente com fotos de atletas de uma cidadezinha.
O leitor há de perguntar: mas isso é notícia? Na era da globalização, o mote, por incrível que pareça, é ser online, mas cada vez mais local.
Pelo menos é nisso que acreditam os editores da tal cadeia de jornais.
Apurada a “reportagem”, o “mojo” mostrado pelo recorte entra no seu carro, abre o notebook e escreve a matéria ali mesmo, enquanto fala ao celular e toma uns goles da Coca-Cola instalada no vão entre a caixa de marcha e o painel de controle. A única luz é a do notebook. As costas devem doer...
Os diretores do jornal planejam ter pelo menos 14 repórteres móveis free-lance em breve, e a equipe permanente (de 30 repórteres) também vai começar a se deslocar para o novo esquema de trabalho. Além disso, aproveitando o esquema “faça-você-mesmo” que blogs, fotologs, videologs e a facilidade de acesso instantâneo da web permitem, a publicação investirá em matérias investigativas... investigadas pelos próprios internautas, acreditando que na prática seriam gerados “milhares de repórteres investigativos em vez de só três”, como disse um executivo ouvido pelo “Post”.
E também haverá um editor especializado em “construir audiências”, para garantir que as histórias de maior apelo fiquem sempre no alto da página. Os comentários dos leitores serão estimulados em “message boards” (alguém aí se lembra do BBS?). E, claro, o ritmo da publicação online não pode parar. A pergunta é: deve-se publicar qualquer coisa, notícia genuína ou não? A turma da redação já está chiando: os textos dos “mojos” não passam pelos editores e acabam enfocando coisas desinteressantes (cadê a pauta?, dizem eles), e a pressão por alimentação ininterrupta do site já gerou pelo menos um constrangimento, quando um editor passou pela redação reclamando que o site não era atualizado há algum tempo e que era preciso publicar alguma coisa, fosse o que fosse.
Não é assim que se faz jornalismo, tenham certeza.
Mas isso não é o pior — entre as mudanças previstas pelos “gênios” da cadeia de jornais, está a idéia de fazer repórteres acompanharem contatos de publicidade a clientes, para explicar melhor como seriam determinadas matérias de interesse...
O que viola a condição básica e sagrada de qualquer imprensa livre: a redação aqui, o comercial lá longe.
Ler o recorte me causou calafrios. Alguém precisa dizer a esses caras que eles estão completamente malucos.
De qualquer modo, acho que seria meio impossível ver um “mojo” aqui no Rio.
Imagine. Carregar notebook, celular, filmadora e câmera digital para a rua. O título da primeira matéria do sujeito ia ser “Perdeu, tio!”. E ela seria escrita à mão...
* * * * *
Pois é, tio, o mundo mudou. O telégrafo morreu, as Remingtons foram aposentadas. Que pena, não?
Pequenas revoluções digitais surgem todos os dias, com o intuito de melhorar a vida de todos. Eu acho que se o jornalismo está tão ruim hoje, certamente não é por causa das novas tecnologias. É por causa das pessoas que estão nas redações dos jornais e revistas, passivos a tudo.
Hoje, o leitor é ao mesmo tempo gerador de notícia. Hoje, o leitor filtra o que quer ler, e não mais o editor dos jornais. Não interessa se o assunto são as contas do PT ou o bambu do Silvio Santos. Quem diz o que é notícia, meu caro, não são mais os jornalistas nem os editores! Em tempos de Digg, aquela teoria do editor de jornal ser o todo-poderoso por determinar o que ganha ou não ganha destaque MORREU!
Eu estudo jornalismo mas não tenho o intuito de ser "jornalista" no sentido ortodoxo. Eu quero ser participante ativa de uma revolução que já se iniciou. Quero apenas melhorar o que já faço: trazer a tecnologia para a vida dos profissionais liberais, estudantes e pequenos empresários de uma forma livre, simples, descomplicada. Quero escrever, ensinar, dar palestras, chegar em todas as mídias possíveis explicando o que sei fazer melhor. A idéia de dar plantão numa redação de jornal de me dá calafrios... eu preciso estar solta, por aí, pois ambientes fechados destroem minha criatividade.
O texto deixou claro que o Sr. André Machado acha o fim da picada os jornalistas atuarem "em campo", escrevendo em seus notebooks no carro, com dor nas costas. Eu sou uma "dentista móvel", atuo em campo. E volta e meia tenho dor nas costas, quando arrumo um dentinho de alguém que teve derrame e mal pode se mexer.
E continuarei sendo uma dentista móvel. Tenho muito orgulho em ter "reinventado" minha profissão e estar fazendo a diferença na vida de muita gente, atendendo idosos e portadores de necessidades especiais. Ainda há colegas que olham torto para mim, já que os ambientes onde atendo não são 100% assépticos como um consultório convencional. Tudo bem, melhor deixar os velhinhos com dor, né? Já estão moribundos mesmo...
A tecnologia móvel abriu um leque de novas oportunidades na minha carreira. Hoje vejo advogados, engenheiros, vendedores, médicos, arquitetos, cientistas... todos móveis. Uma pena que, segundo esse artigo d'O Globo, a tecnologia móvel esteja atrapalhando tanto o jornalismo, não? E só o jornalismo...
postado via wi-fi
Escrito por Bia Kunze em Cybercultura em dezembro 13, 2006 10:48 PM
Citações
Endereço para citar este post:
http://www.odontopalm.com.br/cgi-local/mt-tb.cgi/773
IMPORTANTE: escrevam nos comentários somente o que estiver dentro do assunto do post. Dúvidas genéricas sobre outros assuntos, mandem-nas para: bia arroba garotasemfio.com.br. Obrigada!
Calma Bia... é o medo de perder o emprego à pessoas mais "por dentro" das novidades.
Mas isso vai acabar no "se não pode vencê-los, junte-se a eles" e as coisas vão ficar cada vez mais "tecnológicas" e rápidas, igual a bolsa de valores, "piscou-perdeu".
Falaram a mesma coisa do telefone, do carro, e de várias outras "revoluções" e todos "morderam a lingua".
O tempo provará... ou não... :)
Escrito por ILO Navarro em dezembro 14, 2006 02:19 AM
Oi, Bia!
Olha, na verdade, nessa situação toda, eu só vejo dois problemas: a falta de honestidade da pessoa que quer publicar "qualquer coisa", só prá não ficar a página desatualizada!
O outro é a falta de um ambiente de trabalho, né? Sei que escritórios não costumam ser lugares 100% saudáveis, mas o contato social se perde, numa situação como essa... Lamentável!
Abraço!
Escrito por Fabiano em dezembro 14, 2006 08:45 PM
Se "mobile journalist"=mojo
então "dentista móvel"=demo???
Escrito por Jeferson em dezembro 14, 2006 08:52 PM
Oi bia, otimo post fiquei realmente impressionado parabens, concordo com vc plenamente!!
E Navarro vou ter que discordar de voce, o contato social nao se perde, quer um exemplo ?
A própria Bia, ela atende todos os seus pacientes e além disso ainda conhece gente nova e ve lugares novos durante suas idas e vindas DURANTE o horario de trabalho, quer melhor contato social que esse ?
Num escritório você só tem contato com seus colegas, que mesmo trabalhando fora do escritório você acabaria tendo. Trabalhando móvel voce tem muito mais contato!
Acho q eh só!!
Abs Bia
Parabéns novamente!
Escrito por Rangel em dezembro 15, 2006 12:22 PM
Jefferson, acima de tudo eu acho que a Bia é uma mulher de bom-gosto, que já está entre nós faz tempo, e que merece cortesia e simpatia...
Escrito por cardoso em dezembro 15, 2006 01:27 PM
Se demo for de demonstração, como nos softwares, tá valendo... ;)
Escrito por Bia Kunze em dezembro 15, 2006 02:21 PM
Eu e um sócio resolvemos lançar um jornal local impresso.
Apesar de haver jornais grandes no estado do ES ( onde moro) muito pouco da minha região aparece neles. Daí a necessidade e conseqüente lacuna em aberto.
É difícil começar um jornal, pois os gastos são grandes. Então começamos pequeno, com 6 páginas, quinzenal e vamos crescendo com o passar do tempo.
Lançamos a primeira edição no começo de dezembro e a segunda sai agora dia 21.
O grande diferencial nos dias de hoje é que o escritório fica na minha cidade, Jaguaré - ES, onde trabalham eu, meu sócio e uma secretária. O diagramador mora em Porto Alegre - RS e a jornalista responsável em Vitória - ES, onde também fica a gráfica terceirizada.
Todo o contato é feito por internet (MSN ou Skype) ou por telefone se for no mesmo estado.
Nos municípios que o jornal abrange, temos free lancers que redigem as matérias e nos enviam por e-mail, junto com as fotos necessárias.
Isso é o jornalismo no século XXI.
No final apenas adaptamos as novas ferramentas disponíveis para facilitar a divulgação de um meio já existente.
Seria impossível meu pequeno jornal começar se não houvesse a internet.
E como não poderia deixar de ser, ainda colocamos a edição impressa completa à disposição na internet em www.cidadetotal.com. :)
Somos a prova de que as novas tecnologias não vão enterrar o jornal impresso. No nosso caso acontece exatamente o contrário.
Escrito por silvinho em dezembro 16, 2006 08:00 PM
Infelizmente a reação da imprensa em relação às mudanças trazidas pela tecnologia ao seu "modelo de negócio" não é diferente da reação das grandes gravadoras do mercado fonográfico ou dos sindicatos de trabalhadores brasileiros, pra citar dois exemplos fáceis. E a questão não é só a internet, toda vez que se fala em renovar o mercado de qualquer forma desperta-se o coro dos "deixa-disso" interessados somente em manter privilégios e facilidades envoltos na áurea de "direitos adquiridos". Direitos que nos seus discursos dessas devem ser mantidos a qualquer custo (ainda que o custo seja o desaparecimento da categoria, frente às mudanças que não podem ser evitadas)
Parabéns, Bia! Pelo site, pelo post e por ser agente da mudança na sua categoria.
Escrito por Lucílio! em dezembro 17, 2006 09:09 AM
perfeito seu site.
muito conteúdo..
to adorando ler :)
parabéns
beijos
Escrito por lare em março 8, 2007 03:08 PM
Bia, é a primeira vez que acesso seu site e como muitos, tenho ceteza, estou impressionada com a maneira como você está vivendo essa revolução que muitos só encaram na demagogia. Sou estudante de jornalismo e as discussões sobre novas tecnologias e jornalismo são contantes, sem no entanto chegarem a consensos, o que ao meu ver até que é saudável.
A derrubada da hierarquização na veiculação de informações é nítida em movimentos como a Wiki, mas essses trazem lados negativos como o compromisso com a verdade e a credibilidade.
Ainda há muito o que pensar e testar no jornalismo. Mas com certeza, não é virando as costas para as novas tecnologias e novas condições de trabalho que o meio vai evoluir e acompanhar as mudanças já presentes em tantos outros setores da sociedade!
Parabéns mais uma vez!
Escrito por Carolina Rocha em abril 1, 2007 02:35 PM
Bem....
Suponha que eu tenha que colocar um quadro na parede. Vou precisar de prego, martelo, talvez um band-aid, etc...
Mas se inventarem uma super-ultra-hiper-marteladeira de pregos não significa que eu troque o quadro.
Basicamente temos que entender que os meios (as velhas máquinas de escrever, o PC, os PDA´s, os sei-láo-quê que vierem)não mudam o fato de que o que se procura na informação é a sua qualidade, sua veracidade, o estofo de quem a escreveu....
Eu posso fazer uma pesquisa aqui do Google e fazer uma matéria sobre o Vaticano? Sim.
Mas a Ilse Scamparini (da Globo), que mora lá, tem mais condições de trazer notícias específicas e não genéricas. E, mesmo sendo específicas, dado o momento, é preciso ver se é pertinente. Atualmente, o que interessa mais: uma matéria sobre o Vaticano, ou outra sobre a crise econômica mundial? Pois é.. o velho debate (e confusão) entre forma e conteúdo...
Escrito por Eduardo Pedro em outubro 4, 2008 11:51 AM
Bem....
Suponha que eu tenha que colocar um quadro na parede. Vou precisar de prego, martelo, talvez um band-aid, etc...
Mas se inventarem uma super-ultra-hiper-marteladeira de pregos não significa que eu troque o quadro.
Basicamente temos que entender que os meios (as velhas máquinas de escrever, o PC, os PDA´s, os sei-láo-quê que vierem)não mudam o fato de que o que se procura na informação é a sua qualidade, sua veracidade, o estofo de quem a escreveu....
Eu posso fazer uma pesquisa aqui do Google e fazer uma matéria sobre o Vaticano? Sim.
Mas a Ilse Scamparini (da Globo), que mora lá, tem mais condições de trazer notícias específicas e não genéricas. E, mesmo sendo específicas, dado o momento, é preciso ver se é pertinente. Atualmente, o que interessa mais: uma matéria sobre o Vaticano, ou outra sobre a crise econômica mundial? Pois é.. o velho debate (e confusão) entre forma e conteúdo...
Escrito por Eduardo Pedro em outubro 4, 2008 11:53 AM
