Pequenas e grandes mentiras
Em muitos países, especificamente os de cultura oriental, atitudes anti-éticas são punidas da forma mais eficiente que se tem conhecimento: a própria consciência do infrator.
É comum ver adolescentes japoneses que se suicidam por não passarem de ano na escola, ou jovens que se punem pelo resto da vida por pequenos delitos, fraudes ou mentiras. Uma simples postura incorreta no ambiente de trabalho faz a pessoa pedir demissão, tamanha a vergonha. Reconhecer o erro e retirar-se humildemente é a última tentativa de preservar a honra que restou.
O espetáculo de mentiras a que assistimos semana passada, protagonizado pelo Sr. Silvio Pereira, na CPI, vai tão na contramão de qualquer virtude conscienciosa que chega a ser patético. A pilhéria talvez só não tenha sido maior do que a do deputado João Alves – aquele dos anões do orçamento – que não hesitou em dizer a toda sociedade que seu suspeitíssimo patrimônio era proveniente de sete prêmios de loteria.
Seria a palavra “patético” correta para definir esses senhores? Não seríamos nós os “patéticos”, por assistirmos impávidos a tantas mentiras, num deboche deslavado com todos os cidadãos brasileiros? Não seríamos nós os ridículos, por reagir com tamanha complascência? Afinal, se um senhor se apresenta numa CPI e diz, em frente a todas as câmeras, frases como “não sei se eu menti” e se recusa antes de depor a assinar um termo de compromisso com a verdade, não seria porque ele tem absoluta certeza que vai se livrar de tudo no final? Porque sempre haverá alguém disposto a livrá-lo de tudo?
Se deputados, dirigentes, tesoureiros e membros em geral de todos os partidos se utilizam tanto da mentira no exercício de suas funções, não seria a culpa nossa mesma, de todo o povo brasileiro? E pior, será que o povo brasileiro tem “moral” para julgar os próprios representantes que elege, de modo absolutamente espontâneo, democrático?
O brasileiro é especialista em usar pequenas mentiras a fim de obter vantagens nas mais diversas situações. Executa artimanhas que se aprende desde criança. Rasura o boletim para esconder dos pais as notas da escola, usa o avô e prima grávida para furar fila, usa areia da praia para construir prédios, inventa dor de dente para faltar no trabalho, inventa que a tia Gumercinda está no hospital para sair mais cedo do expediente e ir para o boteco. E do outro lado ainda tem o cambista, o falsificador, o médico que vende atestados, o comércio das drogas. Pior que tudo, o brasileiro é mais especialista ainda em justificar suas pequenas mentiras. Alega pobreza, filhos para criar, lei da selva, diz que precisa sobreviver, precisa espairecer, precisa beber, precisa se drogar. Talvez para esquecer suas pequenas grandes mentiras.

Comments
Já disse o Xerife Lucas Buck: "Consciência é apenas o medo de ser apanhado"
Posted by: cardoso | novembro 22, 2006 09:25 PM
Eres un crack, te saludo desde mostoles...
Posted by: ophelie | julho 21, 2010 08:32 PM