Anestésico do mal
A Vigilância Sanitária proibiu, no dia 27 de novembro de 2006, a venda em todo o território nacional do anestésico Lidostesim (cujo sal é o cloridrato de lidocaína a 3%, com norepinefrina 1:50 000 como vasoconstritor) e da Lidostesina (Cloridrato de Lidocaína a 2% + Norepinefrina 1:100000). O motivo foi uma série de notificações sobre a ocorrência de eventos adversos relacionados ao uso deles. O fabricante do anestésico é o laboratório Probem.
Aqui no Paraná, pelo menos, o Conselho Regional de Odontologia comunicou oficialmente que certos lotes do anestésico, distribuídos no estado, continham problemas. No resto do país, não sei.
Na mesma época eu soube da suspensão através de sites e periódicos odontológicos da internet, que acompanho regularmente. Inclusive acompanhei, através de um portal leigo, o G1, que a fabricante do anestésico contestou a proibição, entrando até com medida judicial para suspendê-la.
De repente, no dia 19 de dezembro último, vem à imprensa o caso da garotinha Milena, que entrou em coma durante um procedimento odontológico, após a injeção do referido anestésico. Alguns dias depois, ela faleceu. E a imprensa imediatamente desceu a lenha na dentista responsável.
Complicado responsabilizar o profissional que executava o procedimento. Tão logo eu soube que a menina entrou em coma, contatei alguns colegas via MSN e Gtalk para discutir o assunto. Nenhum sabia do ocorrido em São Bernardo, e pior, não sabiam da suspensão da venda do Lidostesim e da Lidostesina. Esses anestésicos são amplamente utilizado pelos cirurgiões-dentistas de todo o país.
Eu, particularmente, já havia notado problemas com produtos fabricados pelo laboratório Probem (posteriormente adquirido pela Dentsply), que costumam ter preços bem inferiores que os concorrentes. Na época em que cursava especialização, em 1999, em Ponta Grossa, meus colegas notaram, através dos tubetes, que o anestésico Lidostesim era estranhamente turvo. Nossa turma, desde então, nunca mais o usou. Aliás, um colega brincalhão costumava chamar a Probem de "Promal".
O que assusta mesmo é a atitude do laboratório, que pecou em não só omitir deliberadamente a proibição junto à classe odontológica, como contestou a suspensão e tentou revertê-la judicialmente.
Contudo, lamento que jornalistas da grande mídia prestem um desserviço à odontologia, tecendo suas próprias conclusões sem apurar os fatos adequadamente. Para piorar, alguns veículos generalizaram um problema específico com um lote de anestésico ligando-o ao medo de dentista, a uma extração dentária ou ao fato da criança não querer ir às consultas... isso é muito triste. É a imprensa marrom:
"Ela conta ainda que pensou em desistir de levar a filha para tratamento por causa do seu pavor de ir ao dentista. 'Toda vez que a gente saía de casa ela falava: 'mãe, a gente não vai para o dentista não né?', afirma Amanda, mãe de outras duas meninas, de 2 e 13 anos."
(Fonte: G1)
Lembram do caso da Escola Base? É preciso aguardar o resultado da necrópsia da garota e da análise do anestésico apreendido na clínica. Também é preciso averigüar porque o laboratório Dentsply - Probem não notificou os profissionais dentistas que certos lotes de seus produtos continham problemas. E aí sim, tomar as medidas cabíveis.

Comments
Isso é realmente complicado. Lamentável o falecimento da menina. Será um período difícil para as famílias e, espero em Deus, que elas sejam consoladas. Para aliviar um pouco a dor, graças a Deus, a situação resultou em alegria para outras pessoas, como a criança que recebeu o fígado. De uma outra forma, ela vive ainda.
Mas estão querendo linchar a dentista e a clínica.
É fácil a imprensa marrom com essa cobertura (?) sensacionalista, mostrar a clínica, faixas, mas e o laboratório? E mais grave, entrevistaram os responsáveis pela Vigilância Sanitária da região? Não vi/li/ouvi nada a respeito. Só a clínica.
Esperemos as apurações terminarem para ver no que dará.
Posted by: AndersonTS | dezembro 22, 2006 10:01 PM
Infelizmente, no Brasil, a lei funciona ao inverso: todos são culpados até prova em contrário (exceto os parlamentares, é claro, que são inocentes até quando as provas apontam o contrário).
Posted by: Ein Stein | dezembro 23, 2006 05:12 AM
É um caso muito difícil de tercer algum comentário, mas acredito que a imprensa deve ter mais cautela ao realizar suas reportagens, pois do jeito que tá podemos compará-la aos Direitos Humanos, que só servem para defender o direito dos bandidos, esquecendo-se que a sociedade é constituída por nós cidadãos de bem trabalhadores, honestos, e não os desumanos bandidos, que matam pelos simples prazer de matar, onde vamos parar, com tal inversão de valores?
Posted by: Candice | janeiro 7, 2007 10:52 AM
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Posted by: Alexkor | novembro 10, 2007 03:13 PM
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Posted by: Alexnyf | novembro 18, 2007 02:10 AM
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Posted by: Olgunka-vl | maio 29, 2008 12:12 PM