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Ora, pílulas

Uma decisão polêmica em Pernambuco: o governo disponibilizará a pílula do dia seguinte nos postos de saúde durante o carnaval.

E adivinhem quem foi a primieira entidade a levantar a voz contra tal medida? A igreja católica, claro!

A pílula do dia seguinte é abortiva e gera uma série de efeitos colaterais. Trata-se de uma solução emergencial. Por que disponibilizá-la em postos de saúde, então? Por que não incentivar o uso da camisinha, entre outros métodos preventivos?

Conversei com uma amiga que trabalha na saúde pública e perguntei o que ela achava da novidade em Pernambuco. Como resposta, ela me contou histórias assustadoras. Para resumir, muita gente bebe e se droga tanto no carnaval que não lembra com quem (ou quantos) fez sexo. Essas pessoas, em tal estado, jamais se lembram de camisinha.

Como profissional de saúde, não cabe a mim julgar as pessoas. A pílula do dia seguinte é uma medida radical? Sem dúvida. Mas cheguei à triste conclusão que sua disponibilização é coerente. Em termos de saúde pública, ela evita males maiores. Se você é uma mulher que jamais faria aborto, porque vai contra os seus princípios religiosos, use seus princípios para você. Ninguém tem o direito de interferir no livre arbítrio dos outros.

O Estado brasileiro é laico e, apesar da forte religiosidade, isso está dentro da consciência de cada um. Não somos o Afeganstão. Aqui no Brasil, igreja alguma tem o direito de meter o pitaco em questões de saúde pública.

E nem precisamos ir tão longe, discutindo apenas aborto. Que tal simplesmente fazer controle de natalidade? Até nisso a igreja católica continua sendo contra. O SUS hoje disponibiliza diversos meios contraceptivos gratuitamente, desde camisinha e pílula até laqueadura. Mas não adianta tudo isso se a igreja insistir que ter dezenas de filhos vivendo em estado de pobreza "é a vontade de Deus". A história de José e Ana é o retrato mais do que fiel de uma família católica que só cedeu à laqueadura depois de chegar ao ponto de ter que doar um 18 filhos.

Comments

Bia,

Muito sensato teu texto, e desde já assino em baixo, sem tirar uma virgula.

Quanto menos houver essa interferencia da igreja/religiao na vida das pessoas, mais liberdade elas terão para tomar suas próprias decisões, pensando por si próprias. E sim, essa pilula é essencial para que não tenhamos um bando de pessoas por aí arrependidos por causa de besteiras cometidas nestes dias de carnaval, e não estou aqui pra comentar nem julgar essas pessoas, e sim para criticar a intromissão da igreja/religião na tomada de decisão sobre coisas que deveriam ser normais, como vida sexual, escolhas pessoais e tantos outros tópicos mantidos como tabú.

A gente NÃO vive em um estado laico. Se fosse verdade não haveria uma imagem que não fosse a representação da justiça na sala do presidente do TJ.

Quanto à pilula, ela é um paliativo desconfortável e, ainda assim necessário, pra um problema, e a igreja faz questão de ignorar o problema. Assim como ignora o contínuo aumento da infecção pelo HIV entre jovens e mulheres heterossexuais. Eles ainda são minoria (e muito provavelmente vão continuar sendo), mas se continuar do jeito que está a tendência é crescer ainda mais.

Infelizmente, a sua amiga tem razão. Cerca de vinte dias depois do carnaval sempre foi o período em que eu mais via gente querendo testes de gravidez e métodos abortivos na drogaria.
E a igreja é responsável por um belo retrocesso, não apenas neste caso, mas também na discussão sobre a descriminalização do aborto no Brasil. Descriminalização, aliás, que eu apóio.

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