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May 28, 2004

Diários de Motocicleta

por Cleverson Uliana

The Motorcycle Diaries, EUA/Alemanha/Inglaterra, 2004. Direção: Walter Salles. Com: Gael García Bernal, Rodrigo de la Serna, Mía Maestro, Mercedes Móran, Jorge Chiarella, Jean Pierre Noher. Drama.

No que resulta a união de um mito, um astro mexicano, um ator argentino, um diretor e um editor brasileiros, além de equipes técnicas de outros países? Em nada menos que “Diários de Motocicleta”, em cartaz nos cinemas brasileiros. É o primeiro filme dirigido por Walter Salles em língua que não seja a portuguesa, mas o castelhano. Surge para confirmar a revolução cinematográfica latino-americana, que vem sendo ancorada por mexicanos, brasileiros e argentinos.

Em 1952, antes de se tornar um dos ícones da Revolução Cubana, Ernesto Guevara (Gael García Bernal) é um jovem estudante de Medicina que decide partir da Argentina rumo aos Estados Unidos com seu amigo Alberto Granado (Rodrigo de la Serna). A viagem pela América do Sul é realizada numa motocicleta, que acaba quebrando após oito meses de percurso. Eles então passam a seguir viagem através de caronas e caminhadas, sempre conhecendo novos lugares. Porém, quando chega a Machu Pichu, a dupla se depara com uma colônia de leprosos e passa a questionar a validade do progresso econômico da região, que privilegia apenas uma pequena parte da população.

Então o que era uma simples aventura acaba se transformando numa viagem de autodescobrimento. Antes dela, Guevara preocupava-se apenas em se formar médico e curtir a vida. Mas o percurso o torna um guerrilheiro em busca de uma América Latina mais igualitária, símbolo máximo da rebeldia e da resistência.

Sem deixar de lado sua riqueza e complexidade, “Diários de Motocicleta” mostra em Guevara carismático, divertido, bonitão e aventureiro. A bela composição deve-se ao talento de Gael García Bernal, que vem sendo considerado a grande revelação do cinema mexicano moderno, a ponto de ser requisitado por diretores americanos. Sua parceria com Rodrigo de la Serna é brilhante, uma vez que os dois souberam como ninguém encarnar o espírito de seus personagens.

O grande acerto do filme foi captar a essência do livro “De Moto Pela América do Sul – Diários de Viagem” e mostrar a vida de Guevara antes do surgimento de sua ideologia, evitando assim o resumo arriscado de uma trajetória extremamente longa e complexa em duas horas. Mesmo assim, é admirável o esforço de Walter Salles, que dedicou quatro anos ao projeto, sendo dois deles apenas de pré-produção, percorrendo o mesmo caminho feito pela dupla há mais meio século.

No entanto, faltou uma maior definição no tratamento dado à história, que parece o tempo todo tentar mesclar ficção e documentário, tendendo mais para o segundo, o que torna “Diários de Motocicleta” cansativo e até mesmo arrastado em determinados momentos. Mas a qualidade técnica é impecável, como bem previu o trailer, com fotografia e montagem excepcionais. Diverte sem apelação e emociona sem se tornar piegas. Mas não é um filme que agrada a todos, como bem se pode notar na saída da sala de cinema. Ao contrário da maioria dos críticos, em se tratando de Walter Salles, ainda sou muito mais “Central do Brasil”.

Escrito por em May 28, 2004 02:51 AM

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