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May 06, 2004
Kill Bill
por Cleverson Uliana
Kill Bill, EUA, 2003. Direção: Quentin Tarantino. Com: Uma Thurman, Lucy Liu, Vivica A. Fox, Daryl Hannah, David Carradine, Michael Madsen. 1h51. Ação.

Em 1994, o mundo conheceu Quentin Tarantino, premiado com o Oscar de roteiro original e a Palma de Ouro em Cannes por “Pulp Fiction - Tempo de Violência”. Um filme inovador e ousado tanto na forma quanto no conteúdo. Nove anos e dois filmes depois, o diretor voltou aos holofotes com o badalado “Kill Bill”.
O filme mostra uma assassina (Uma Thurman) que trabalha num grupo composto por outras três mulheres, um homem e liderado por Bill (David Carradine). Prestes a se casar com ele, sofre um ataque do próprio noivo e das companheiras de trabalho no dia do casamento. Permanece em coma durante quatro anos e acorda com sede de vingança.
“Kill Bill” é um filme controverso, que não à toa está dividindo a opinião dos espectadores. Passa do extremo do bom ao ruim e da coerência ao absurdo com uma facilidade ímpar. O talento de Tarantino está lá em excelentes enquadramentos e movimentos de câmera, trilha sonora e som primorosos, bela fotografia e grande trabalho de edição. No entanto, muitas das qualidades se perdem quando o filme resvala para o exagero, ficando difícil levar alguma coisa a sério.
O próprio Tarantino afirmou que o filme não passa de uma “homenagem” aos filmes japoneses de pancadaria e artes marciais. Mas, mesmo ao espectador consciente de tal informação, é difícil digerir certas cenas que beiram o ridículo e causam apenas risos. Muitos podem dizer que a grande diferença de “Kill Bill” é que o filme foi produzido com essa intenção, sem comprometimento com a realidade e que muitas cenas são propositadamente trash. Contudo, a meu ver, existe uma distância significativa entre o realismo fantástico bem elaborado e o absurdo sem fundamento.

“Kill Bill” oscila o tempo todo entre os dois extremos e talvez seja essa a causa de ter se tornado uma obra tão discutível. O grande atrativo do filme são as lutas e duas delas realmente são de tirar o fôlego. Uma delas, entre a noiva e Vernita Green (Vivica Fox), abre o filme de maneira exemplar. A outra, dessa vez entre a noiva e Gogo Yubari (Chiaki Kuriyama), uma guarda-costas de 17 anos, é excepcional. São duelos fortes, impactantes e muito bem dirigidos.
Entre pontos positivos e negativos, fica evidente a pobreza dos poucos diálogos, sempre beirando o senso comum. Saudades da metralhadora giratória de “Pulp Fiction”, que teve na elegância do cinismo e da ironia a base de todas as falas do filme.
Mas há sacadas geniais como a abertura ao som de “Bang Bang” (Nancy Sinatra), o efeito sonoro que não deixa o espectador saber qual é o verdadeiro nome da noiva, a inserção de uma animação japonesa dentro do filme para explicar a entrada de O-Ren Ishii (Lucy Liu) no mundo do crime e o fato de cada integrante do grupo de assassinos possuir um codinome referente a algum tipo de cobra. Isso é Quentin Tarantino! E não certas lutas que apelam apenas para o risível jorrar de sangue. Pelos 450 galões de sangue falso usados no filme pode-se ter uma idéia do estrago. Até mesmo o propalado combate da noiva com os 88 membros da equipe de O-Ren Ishii deixa a desejar. Não passa de uma infeliz mistura de “Matrix Reloaded” com “O Tigre e o Dragão”.
O pior de tudo é ter que esperar quase seis meses para assistir ao desfecho da história. Na tentativa de não cansar o telespectador com um filme de 3h30, Tarantino cometeu o equívoco de dividi-lo em duas partes. Não será surpresa se o segundo render menos bilheteria, o que já vem acontecendo nos EUA. Será apenas o reflexo da “brincadeira” de Tarantino. Penso ainda que a culpa pela frustração do espectador não é nem tanto de Tarantino, mas da mídia, que criou em torno de “Kill Bill” uma aura que nem de longe existe.
Escrito por em May 6, 2004 07:40 PM