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May 21, 2004
Tróia: um filme sem protagonistas?

Um elenco estelar de galãs e uma produção primorosa são a tônica do épico Tróia, que estreou nos cinemas nesse último fim de semana.
Contudo, têm-se a estranha sensação de que o filme não tem protagonista. Embora o mote seja um triângulo amoroso que descadeia um dos maiores massacres do mundo antigo, os três personagens são o centro das atenções apenas no início do filme. Aquiles é sem dúvida o personagem mais focado, e quando acredita-se que ele seja o protagonista, o príncipe Heitor rouba a cena no meio da película, para que, bruscamente, no final, Aquiles reassuma o foco.
Escreverei aqui somente sobre o papel dos atores desse épico, enfatizando seu desempenho:
Brad Pitt (Aquiles) - O ator ganhou 5 kg para fazer esse papel. Embora possa parecer que sua função na trama seja apenas exibir sua beleza e seus músculos, felizmente até isso está no contexto da história. Aquiles era filho de um Deus com uma mortal, justificando sua beleza olímpica. O personagem é tão cheio de si que às vezes chega a ser risível. Ainda assim, cabe dentro do personagem, já que Aquiles era o maior guerreiro de seu tempo, e a convicção disso o deixa convencido e orgulhoso. O problema é quando ele fica piegas. As cena onde chora a morte do primo, e depois do príncipe Heitor, lembrou-me muito a chorona Kim Basinger em "África dos Meus Sonhos". Tal e qual digno de um Framboesa de Ouro.
Orlando Bloom (Paris) - No início do filme acredita-se que ele seja o protagonista, roubando Helena do tirano Menelau. Mais tarde, o personagem revela o que de fato é: covarde e inexpressivo. Tão bundão que chega a dar raiva na platéia. A culpa não é de Orlando Bloom, ao contrário, o objetivo era justamente esse. Portanto, seu papel foi bem executado. Contudo acredito que faltou mais fulgor e paixão no personagem, já que é por amor que ele justifica suas atitudes. Mesmo nos momentos românticos com Helena ele parece um pouco distante.
Diane Kruger (Helena) - Segundo a Ilíada, de Homero (obra na qual o filme foi inspirado), Helena era tão bela, altiva e cativante que foi capaz de provocar uma guerra entre gregos e troianos - por ser o centro do triângulo amoroso entre dois nobres. A jovem atriz Diane Kruger é muito bonita, mas falta-lhe personalidade. Ao invés de demonstrar convicção por ter deixado o marido para ficar com Páris, ela se lamenta o tempo todo, e sua expressão de medo é sempre forçada. Difícil dizer se a falha está na atriz ou na direção, o fato é que essa Helena é tão sem sal que não justifica nem uma passagem de ônibus Curitiba-Piraquara, quem dirá o deslocamento de mil navios no Mar Egeu.
Eric Bana (Heitor) - É o destaque entre os jovens atores. Se a interpretação convincente de Eric Bana era o que segurava o filme Hulk, em Tróia esse fato se repete. As cenas de luta são ótimas, em especial seu último confronto com Aquiles. O ator carrega na força dramática para transparecer seu esforço em lutar com um inimigo quase invencível. E comove ao proteger a esposa e filho.
Rose Byrne (Briseis) - Não tem a beleza de Helena, mas sua personagem é cheia de atitude e a atriz capricha na atuação, roubando a cena. Em vários momentos, a sacerdotiza é muito mais sensual que a própria protagonista.
Priam (Peter O'Toole) - O rei de Tróia é indiscutivelmente o melhor personagem no filme. A experiência do veterano Peter O'Toole é a responsável pelo êxito de seu Primis, tão apaixonado por seu povo e tão devoto aos deuses, às vezes até de maneira irresponsável. Duas cenas valeram o meu ingresso. A primeira: quando beija as mãos de Aquiles e implora que o deixe fazer os rituais fúnebres a seu filho. A segunda: quando ele vê Tróia em chamas, destruída. Sua expressão facial dispensa qualquer fala ou diálogo naquele momento. Os olhos azuis cheios de força dramática atuam por si mesmos.
.: Postado via Palm :.
Escrito por em May 21, 2004 05:32 PM