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June 18, 2004

Cazuza: O Tempo Não Pára

por Cleverson Uliana

Cazuza: O Tempo Não Pára, Brasil, 2004. Direção: Sandra Werneck, Walter Carvalho. Com: Daniel de Oliveira, Marieta Severo, Reginaldo Faria, Emílio de Mello, Andréa Beltrão, Leandra Leal. 1h39. Drama.

Ele sempre enfatizou que o tempo não pára. Mas fica a impressão de que tudo aconteceu há tão pouco tempo para quem vivenciou a trajetória do jovem carioca que de anônimo transformou-se em fenômeno, que passou da virilidade ao definhamento causado pelo vírus HIV. A estréia de “Cazuza: O Tempo Não Pára” traz novamente à tona a metralhadora revoltada que até hoje é um dos ícones da música brasileira.

O filme mostra a vida tresloucada que marcou o percurso profissional e pessoal de Cazuza (Daniel de Oliveira), do início da carreira, em 1981, até a morte em 1990, aos 32 anos. O sucesso com o Barão Vermelho, a carreira solo, o comportamento transgressor e a coragem de continuar a carreira, criando e se apresentando, mesmo debilitado pela AIDS.

Daniel de Oliveira está soberbo, digno de todos os aplausos, numa atuação como há muito não se via no cinema nacional. A impressionante incorporação rompeu as barreiras do físico e chegou ao comportamento a ponto de, em determinados momentos, ter-se a nítida sensação de estarmos frente a imagens de arquivo de Cazuza. O restante do elenco obviamente se apaga, uma vez que é impossível que todas as luzes não se voltem para esse grande ator da nova geração.

A seleção de músicas inseridas no filme faz o espectador viajar no tempo. Todas as melhores lembranças de Cazuza estão lá: “Ideologia”, “Codinome Beija-Flor”, “Exagerado”, “Bete Balanço” e, claro, “Faz Parte do Meu Show”, que fecha o filme com chave de ouro. Emocionante também a grande idéia de mesclar imagens do filme com cenas originais da primeira edição do Rock In Rio, em 1985, numa das últimas apresentações de Cazuza no Barão Vermelho.

Como nem tudo são flores, o filme peca por romancear uma história que tem sua essência na polêmica. Claro que não poderíamos esperar algo diferente de um filme baseado num livro naturalmente materno e superprotetor. A verdade é que a vida de Cazuza sempre foi publicamente esmiuçada, o que fez com que muitas pessoas criassem aversão a ele. Por outro lado, foi justamente aquela personalidade exageradamente despudorada que aumentou seu fã-clube.

A bebida, o sexo e as drogas sempre foram aliados da veia artística de Cazuza. Suas músicas, que falavam dos anseios de toda uma geração, sempre estiveram diretamente relacionadas à sua vida. Tudo isso é mostrado com eficiência no filme. Entretanto, falta uma maior reflexão em torno de como a vida regada a drogas e sexo desvairado levou-o a contrair o vírus da AIDS.

Compactar uma vida como a de Cazuza em menos de duas horas é um desafio que o filme não conseguiu vencer. Enquanto fatos importantes são mostrados apressadamente, outros são completamente ignorados. Os verdadeiros motivos que o fizeram deixar o Barão Vermelho no auge do grupo, os primeiros sintomas da doença e a própria descoberta da contaminação. Tudo é minimizado, quando não ignorado.

Mas nada é mais nocivo à obra que a absurda edição de som, que resultou na total falta de sincronização da dublagem no momento das músicas. Um problema técnico que congela o espectador em cenas onde a emoção deveria correr solta, já que são executadas as versões originais na voz de Cazuza. Um lapso imperdoável num filme que se propõe a retratar a vida de um cantor.

Percebe-se que “Cazuza: O Tempo Não Pára” não é uma obra excepcional. Pode inclusive frustrar os mais fervorosos fãs. O acúmulo de detalhes discutíveis acaba tornando o filme mediano. Permanece somente como uma idéia brilhante que foi se apagando no decorrer do percurso, resultando num filme frio e resumido ao extremo.

Escrito por em June 18, 2004 01:18 AM

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