« Audiência de TV (31/05 a 06/06) | Principal | Filmografia: Charlize Theron »

June 23, 2004

Elefante

Por Ana Asko e Bia Kunze

Elephant, EUA, 2003. Direção e roteiro: Gus Van Sant.
Com: Alex Frost, Eric Deulen, John Robinson, Elias McConnell, Jordan Taylor, Carrie Finklea, Nicole George, Brittany Mountain. 81 min. Suspense.

O clima pesado e angustiante é a tônica de Elefante, de Gus Van Sant. Mas o resultado da obra fica aquém do que talvez tenha sido idealizado pelo diretor. Não há discussão social, não há críticas condenando George W. Bush e o "imperialismo" norte-americano, como o ótimo Tiros em Columbine - obra original na qual Elefante foi inspirado. Ao contrário, o filme é ríspido e se resume em "recriar" o massacre de alunos na escola Columbine, feito por colegas da própria escola, usando armas de fogo para exasperar seus neuroses. E esse é o grande problema: sem discussão social, as mortes são retratadas como um jogo de videogame, como se cada vitória fosse uma pontuação a mais no placar. Matar e morrer se torna tão banal quanto atravessar a rua ou ir à padaria da esquina. Matar gratuitamente quem aparece pela frente é apenas um ajuste de contas, uma revanche infantil. Não há ódio por conta dos matadores, que riem e se divertem como se aliviassem todos os seus recalques.

Foram usados atores amadores para a produção, o que deu um ar de filme B no resultado final. Cenas repetidas em diferentes pontos-de-vista dão vida ao roteiro, que é o que mais chama a atenção. A edição é não-linear, a história vai e volta, mostrando a mesma cena de diferentes pontos de vista. Sempre que se apresenta um novo personagem, mudam-se o foco e o tempo. Uma mesma cena vista há 15 minutos volta em um outro ângulo. Antes era o jovem posando para uma foto, agora a câmera está sobre os ombros da menina que tem vergonha do seu corpo. Isso faz com que o espectador procure prender sua atenção por toda a narrativa.

Os matadores são dois jovens aparentemente normais, sem maiores problemas em casa - têm comida e conforto - porém humilhados e desprezados pelos colegas de escola, que ironicamente também são problemáticos (há suposta gravidez, meninas bulímicas, garoto que cuida do pai alcoólatra). Se por um lado os assassinos são "normais" e até talentosos (com qualidades no piano ou no gosto pela leitura), por outro lado cultivam hábitos estranhos: treinam assassinatos nos videogames e compram fuzis pela internet. E é ao retratar a sexualidade dos meninos como "bizarra" que Gus Van Sant escorrega feio: quando ambos estão perdendo a virgindade no chuveiro ("porque vão morrer no dia seguinte"), têm se a sensação que a homossexualidade é um desvio patológico, tanto quanto sua mente de assassinos.

O título do filme se inspira naquele ditado sobre o óbvio que está em nossa frente, e não enxergamos mesmo assim - o elefante em nossa sala de jantar. Não é a toa que o quarto de um dos garotos mostra o desenho de um elefante. Pena que o mesmo não aconteça com o filme, que pode chocar num breve instante, mas no dia seguinte é esquecido.

Escrito por em June 23, 2004 01:16 AM

Comentários