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October 31, 2004
O Espanta Tubarões - dublado ou legendado?
Se você vai ao cinema com seus pimpolhos, esqueça essa análise, comprem um balde de pipoca e sejam felizes. Caso contrário, é bom saber algumas coisas antes de optar pela versão dublada ou legendada.
Os dubladores brasileiros são ágeis e competentes na hora de colocar animações norte-americanas em nosso idioma. Um dos melhores trabalhos foi Monstros S.A., para citar apenas um. Passar um desenho animado americano para o português não é um trabalho fácil. Não se trata apenas de fazer uma tradução adequada, bem adaptada, nem de selecionar atores com timing para as maluquices dos personagens de desenhos. Muitas vezes a barreira cultural inviabliza completamente uma adaptação fiel. Perde-se o comprometimento com o mote do filme e a identidade dos personagens.
É o que infelizmente acontece com a versão legendada do excelente "O Espanta Tubarões", em cartaz nas salas de cinema brasileiras. Para cada sete salas exibindo a versão dublada, há apenas uma exibindo a
versão legendada, e sempre em horário inadequado, como por exemplo, a última sessão do dia às 22.30 h da noite.
Os problemas começam na caracterização dos personagens. O estúdio fez cada um deles já baseando-se em características físicas dos futuros dubladores, o que confere ao filme uma originalidade sem par. Até a pinta do tubarão Don Lino é a mesma de Martin Scorsese. O protagonista Oscar nada mais é que Will Smith desenhado como peixe. A semelhança é escancarada tanto na voz como nos trejeitos, e até no modo de olhar de Smith. Em vários pontos do filme, o peixinho dança e canta como o rapper que naturalemnte ele é.
O brasileiro escolhido para encarar o peixinho foi o ator global Paulo Vilhena, mais conhecido pelas beldades que namora que propriamente suas atuações. Mas ele não faz feio. A questão é que o rapper virou surfista, e quem conhece o mínimo de cultura americana de cara vê que tem alguma coisa errada. Como o rap não tem em terra brasilis a penetração popular que tem nos EUA, a saída foi transformá-lo num carioca da gema, inclusive com gírias próprias da garotada da praia.

Oscar: rapper vira surfista na voz de Paulo Vilhena
Oscar é um peixe simpático mas cheio de malandragem que trabalha num hilário lava-baleias. Ele aspira ser famoso e viver no topo do recife, como um um astro. Um dia, um acidente mata um dos filhos de Don Lino, um tubarão mafioso que manda no fundo do mar. Mas uma confusão no local faz o povo do mar acreditar que Oscar matou o tubarão, transformando-o em celebridade instantânea. Oscar sustenta a mentira e se auto-proclama matador de tubarões. Enquanto curte a boa-vida, nem imagina que terá que enfrentar de verdade a ira de Don Lino e seus asseclas. Para isso, contará com Angie, a peixinha apaixonada por ele e com o tubarão vegetariano Lenny, que o ajudará a levar a farsa adiante.

Ernie e Bernie: originalidade ao usar águas-vivas como personagens
Algumas também parecem estranhas e parecem não condizer com situações vividas pelos personagens, também por questões de adaptação cultural. Fora isso, o filme é muito bem estruturado e repelto de gags do início ao fim, com muitas paródias e citações de filmes famosos. Um deles é o politicamente correto "Procurando Nemo", da rival Disney-Pixar, que se passa igualmente com criaturas marítimas.
Enfim, para as crianças, é uma excelente pedida, e elas se divertirão com as gírias modernas e os personagens coloridos, engraçados e cativantes. Destaque especial para Lenny, que traz às crianças reflexões sobre a aceitação do "diferente" em nossa sociedade. Além dele, vale a pena prestar atenção nas engraçadíssimas águas vivas abiloladas Ernie e Bernie.
Contudo, se o público principal são adultos, é melhor pensar duas vezes antes de optar por uma versão. Se você faz questão de autenticidade e das excelentes vozes originais, melhor assistir uma cópia legendada, ainda que em horário alternativo.
Ficha técnica:
O Espanta Tubarões, Shark Tale, EUA, 2004
Gênero: Animação
Duração: 90 min
Distribuidora: UIP
Produtora: DreamWorks e Pacific Data Images (PDI)
Diretores: Bibo Bergeron, Vicky Jenson, Rob Letterman
Roteirista: Rob Letterman, Damian Shannon, Mark Swift, Michael J. Wilson
Elenco: Vozes de Will Smith, Martin Scorsese, Robert De Niro, Reneé Zellweger e Angelina Jolie, Jack Black, entre outros.
Escrito por Bia Kunze em 31/10/2004 | Citações(224)
October 24, 2004
"Show de Truman" será realidade
Em março de 2005 estreará na Alemanha um reality show nos moldes do "Show de Truman", filme estrelado por Jim Carrey e que criticava o modismo do gênero em todo o mundo.

A televisão alemã vai ganhar em março do ano que vem um programa nos moldes do "Show de Truman", filme estrelado por Jim Carrey sobre a obsessão aos reality shows. Na fita, Carrey vive um personagem que nasceu na televisão e, até a vida adulta, teve sua vida mostrada à população mundial, sem saber das filmagens. O espaço já está sendo construído nos arredores de Hamburgo. Trata-se de uma minicidade com todos os serviços, como escolas, médicos, comércio e igrejas. Haverá inclusive uma floresta.
Assim como o longa de Hollywood, o cotidiano dos participantes do reality será gravado durante 24 horas, exibido em tempo real na internet e em programas compactos na televisão.
Os produtores do programa dizem que o objetivo é que os participantes vivam lá por anos, apaixonem-se, frequentem escolas e até se casem e tenham filhos. Para isso, desenas de participantes devem ser recrutados a fim de formar um grupo grande. A respeito desse contexto familiar, o produtor Rainert Laux disse: "Esperamos que os casais tenham filhos e que todos os grupos familiares interajam entre si. Eles poderão fazer exames lá caso desejem frequentar escolas, aprender línguas ou desenvolver alguma carreira profissional."
A emissora RTL2 não deu detalhes a respeito de patrocínio.
Celebridades poderão aparecer ocasionalmente, mas o principal grupo de participantes permanecerá no programa "por décadas", segundo Laux, que ainda afirma que o atual formato de reality show está saturado. A cidade será o mais realista possível, assim os participantes não terão problemas em se reinterar à sociedade. Os produtores não devem eliminar participantes. Quem for escolhido para ir a cidade pode ficar lá para sempre se assim desejar.
Contudo, o psicólogo especialista em mídia Jo Graibel afirma que esse tipo de formato é preocupante. Não importa o quão realista o meio seja, as pessoas que lá se mantiverem por períodos longos de tempo terão problemas numa eventual readaptação ao mundo real.
onte: Media Guardian
Escrito por Bia Kunze em 24/10/2004 | Citações(0)
October 14, 2004
"Rei Arthur" impressiona, mas não pelos protagonistas
Num longa de atuações e direção irregulares, a produção técnica e as cenas de luta são os pontos fortes desse filme em cartaz nos cinemas.

Se você vai ao cinema ver "Rei Arthur" por causa dos personagens, ou por causa das histórias já conhecidas do personagem-título, esqueça. Você vai se frustrar. Este filme de Antoine Fuqua prima pela plástica. Além disso, é preciso ter em mente que o roteirista David Franzoni, que tem "Gladiador" no currículo, reinventou completamente a lenda do célebre Arthur e seus Cavaleiros da Távola Redonda. Não há magia nem bruxaria, Morgana simplesmente não existe nessa versão. Merlin até se faz presente, mas está mais para um mendigo do que um mago poderoso. O lado "conto de fadas" é deixado de lado em favor de um suposto lado "histórico" - mesmo sem sabermos se Arthur e seus cavaleiros existiram.
Os protagonistas decepcionam. O Arthur de Clive Owen é inexpressivo e distante, e mesmo nas cenas onde tenta conferir alguma dignidade ou conflito de ideais, falta-lhe o carisma inerente aos grandes heróis.
A bonitona Keira Knightley, que faz Guinevere, apresenta uma canastrice que chega a constranger. Aliás, suas caras e bocas exagerados e seus trajes de tiras de couro destoam de tudo, tornando-a inverossímil. Sua única função no filme é conferir uma aura de sensualidade, seja suja na masmorra ou seja (pouco) vestida e tatuada para a guerra. Mesmo assim, tem-se a sensação que alguma coisa está faltando nas cenas de flerte e, posteriormente, de romance com Arthur, tamanha a frieza de ambos.
Também há falhas na escolha do elenco que levam o filme a situações estranhas - por exemplo, o bispo salvo no início da história e que recruta Arthur para a missão. Seus dentes superiores de porcelana perfeitamente emparelhados contrastam com seus dentes inferiores gastos e escuros, o que faz o público rir nos takes fechados. Além dele, o filho do líder saxão está completamente perdido na trama, fazendo cara de menino emburrado e contrafeito o tempo todo.
Mas nem tudo é decepção no elenco desta aventura. Além da fotografia e da trilha sonora, três atuações são responsáveis pela atenção que a história exige. Para começar, o Lancelot-com-cara-de-brabo de Ioan Gruffudd é impecável do início ao fim, embora use um colar mostrado várias vezes que não diz a que veio. A segunda surpresa é o tosco Bors (Ray Winstone), que confere força aos cavaleiros e é o responsável pelos toques cômicos, com sua penca de filhos bastardos a tiracolo. E por fim, o cruel líder saxão de Stellan Skarsgard, que atua com segurança e mostra bem sua filosofia absurda de limpeza racial. Seu sadismo e prazer de matar não poupam nem mulheres indefesas, nem o próprio filho - o careca emburradinho.
Mas vamos ao que interessa, que é o que compensa o ingresso: o roteiro diferente e as belas cenas de luta. O filme é uma mostra claramente como os efeitos especiais e cenários gráficos não precisam chamar mais a atenção que o filme em si.
Sob ordens de Roma, Arthur e seus Cavaleiros devem viajar atá a divisa entre a Bretanha e a região dominada pelos bárbaros do norte, para resgatar uma família de nobres romanos. Para chegar lá, eles devem enfrentar inimgos tribais que habitam florestas e os saxões, que querem dizimar os bretões e estabelecer sua etnia sobre todos.
Junto com Guinevere, por quem se apaixona, Arthur descobre que a Roma que ele sempre defendeu (ainda que à força) era uma ilusão. Assim, deixa de defendê-la e sua luta passa a ser em prol da Bretanha, conforme sua consciência determina, e engalfinha-se numa guerra contra a hegemonia dos saxões.
O longa é tecnicamente perfeito, a fotografia e a trilha sonora são envolventes e a história, com um ar de épico histórico, transmite ao público valores como amizade e companheirismo. As cenas de guerra não mostram sangue, provando que não é preciso mostrar corpos dilacerados e violência em excesso para convencer. A cena do confronto sobre o lago congelado, em especial, é de uma plástica impressionante. A criatividade do roteirista é bem-vinda, mas infelizmente os protagonistas deslocados e mal-dirigidos poderiam ter alçado a produção a um patamar melhor.
Ficha técnica:
Rei Arthur King Arthur, EUA, Irlanda, 2004)
Gênero: Aventura
Duração: 125 min
Distribuidora: Buena Vista
Diretor: Antoine Fuqua
Roteirista: David Franzoni
Elenco: Clive Owen, Ioan Gruffudd, Keira Knightley, Mads Mikkelsen, Joel Edgerton, Hugh Dancy, Ray Winstone, Ray Stevenson.
Escrito por Bia Kunze em 14/10/2004 | Citações(221)