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December 30, 2004

Retrospectiva 2004 na Globo

Epa. Este não parece o mundo onde vivemos...

Tanta coisa importante aconteceu no mundo esse ano, e a Globo tratou tudo com a superficialidade de sempre. No melhor estilo Jornal Nacional, ela define o que é importante ou não.

E jogam ali, na sua cara, a morte de Yarafat como se fosse a de um cantor pop. E banalizam a Daiane dos Santos. E mais uma vez as cenas que os telejornais repetiram à exaustão essa semana: tsunami, morte e choro.

Ah, claro. Destaque para a o filme da Gisele Bundchen, o casamento de Huck e Angélica, Luma e o bombeiro, e mau gosto dos mau gostos, o tombo que fez Fidel Castro fraturar o joelho, com vários replays.

E uma bela homenagem ao Lula e ao Palocci, ambos com muitos sorrisos, arrotando um otimismo exagerado. Indústria em crescimento! Muita exportação! Emprego em abundância! A emissora tem que garantir a generosa caixinha do governo federal e rolar sua própria dívida com puxação de saco.

A Retrospectiva 2004 parecia uma versão eletrônica da revista Caras, com um toque de Notícias Populares. "Os fatos que marcaram o Brasil e o mundo em 2004." Só rindo...

Uma tsunami de ignorância para fazer lavagem cerebral nos incautos.

Escrito por Bia Kunze em 30/12/2004 | Citações(226)

December 15, 2004

O expresso polar

Por que assistir a mais um filme natalino, sabendo-se que os clichês hollywoodianos são tão presentes quanto a neve e os gorrinhos vermelhos?

O Expresso Polar tem como principal atrativo a inovação. A preocupação com os detalhes é tão grande que, a cada cena, o espectador pergunta-se se aquilo que vê é real ou animação.

Enquanto em atrizes e modelos de carne e osso usa-se ferramentas digitais para atenuar defeitos e ocultar imperfeições, os atores de O Expresso Polar abusam da exibição dessas características para conferir um aspecto mais próximo possível do real. Impossível passar incólume ao espectador as sardas no rosto do protagonista, os pelinhos da sombrancelha, o branco das unhas, os dentinhos levemente tortos da menina negra, bem como seus cabelos desalinhados e eriçados na nuca. A continuidade também é levada a sério, como a franja colada à testa pelo suor, após uma cena de ação. Coisa que paradoxalmente inexistiu em Capitão Sky - o penteado de Gwineth Paltrow não saía do lugar após lutas e saltos sobre penhascos... E seu batom estava sempre bem passadinho!

Enfim, eis um filme de roupagem e temática tradicional, sem novidades, nem por isso descartável. Uma obra que pode inclusive levar algumas estatuetas técnicas no próximo Oscar.

Escrito por Bia Kunze em 15/12/2004

December 02, 2004

Capitão Sky e o Mundo de Amanhã

O primeiro filme com ambientação 100% virtual tinha tudo para ser um sucesso. Todavia, revelou-se um fracasso fragoroso e não é difícil entender o porquê.

Quem acompanhou os detalhes da produção do filme Capitão Sky e o Mundo de Amanhã certamente aguardou com expectativa a estréia do mesmo. Além dos protagonistas estelares (Jude Law, Gwyneth Paltrow e Angelina Jolie), o grande chamariz da produção foi a nova roupagem tecnológica. Os atores contracenaram em frente a uma tela azul e os cenários foram adicionados com o uso de computadores. Além do cenário, naves, dirigíveis e até alguns personagens são virtuais. E como apelo final, uma história ambientada na década de 1930-40 e não futurística, como todo esse caráter tecnológico faria crer.

O resultado é de fato surpreendente, e a interação dos atores nesse ambiente é perfeita, graças à fotografia amarelada que visa maquiar a defasagem entre atores reais e cenários virtuais.

Contudo, Capitão Sky e o Dia de Amanhã é a prova cabal que uma produção desse nível não deve se segurar apenas na inovação tecnológica. Falta roteiro, falta carisma aos protagonistas, falta uma história no mínimo crível, ainda que numa fantasia extraordinária.

A cor sépia, em conjunto com os enquadramentos inclinados e os destaques para bilhetes e manchetes de jornais também têm a função de simular os anos 40 com uma aura de história em quadrinhos. Porém, depois de alguns minutos, o amarelo excessivo cansa o expectador.

O diretor estreante Kerry Conran não segura a história. Os diálogos idiotas e a falta de identificação dos personagens com um objetivo em comum afundam toda a película e botam o espectador para dormir - isso se ele tiver paciência de assistir até o fim, já que o desfecho de uma história tão boba não desperta o interesse de ninguém.

Jude Law está apenas mediano como Capitão Sky, e nem mesmo seus belos olhos são o suficiente para cativar o espectador, ou fazer com que se torça por ele, já que o herói tem uma empáfia injustificada. Gwyneth Paltrow é por padrão sem sal e inexpressiva, contudo, transformou sua jornalista Polly Perkins numa pentelha de doer. Suas ceninhas de ciúme e seus trejeitos não convencem, ainda mais saltando por penhascos de salto agulha e fugindo de robôs sem que um fio de cabelo saia do lugar, além do batom sempre bem passadinho na selva mais distante. Detalhes de figurino à parte, Polly é chata demais e não tem metade do charme que uma heroína deveria ter. Angelina Jolie é a melhor em cena, surpreendentemente sexy mesmo como uma militar durona e de tapa-olho. Mas a superestimação de suas habilidades, como ejetar de uma nave dentro do mar e cruzar os céus fazem a platéia gargalhar de incredulidade.

Incredulidade, aliás, é o sentimento comum da platéia até o fim da história. Naves cruzam o céu de Nova York, robôs gigantes destroem o que vêem pela frente, máquinas tecnologicamente avançadíssimas planejam alterar o curso da humanidade para sempre. E o corajoso Capitão Sky sempre consegue driblar as naves inimigas e derrotar os terríveis robôs com seu aviãozinho teco-teco!

Por melhor que seja dos pontos de vista estético e tecnológico, Capitão Sky e o Mundo de Amanhã justifica seu fracasso de público e crítica. Mesmo a piadinha final do filme faz o espectador sorrir mais de alívio pelo fim da projeção do que pela piada por si só...

Escrito por Bia Kunze em 02/12/2004 | Citações(0)